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A elite que temos não liga para história.

por Erick Coser

08 de OUTUBRO de 2018

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A elite que temos não liga para história.

Esse texto não é para o eleitor médio do Bolsonaro, mas para você que faz parte da bolha majoritariamente rica e privilegiada (assim como eu) do meu círculo de amigos no Facebook e ainda assim escolhe votar nele.

Marina Silva muito bem definiu em 2014, ao ser injustamente atacada por Dilma Rousseff por ser apoiada pela “zelite” do país (na forma da educadora Neca Setubal, herdeira do Itaú-Unibanco), respondendo que o que faltava ao Brasil eram exatamente elites, e não apenas econômica, mas também intelectual, cultural, e o quão importante isso era para o desenvolvimento de um país.

Volto à essa questão em 2018. Jair Bolsonaro está prestes a ser eleito presidente da 8ª economia do mundo. Quão maior o nível de renda e de escolaridade maior é a sua intenção de voto.

Entendo perfeitamente o voto de classe média e baixa, de quem é roubado, às vezes, mais de uma vez no mês indo pro trabalho em um transporte público bosta. Ou quem tem um vizinho, se não um familiar, morto por bandidos que seguirão tranquilamente impunes. Mas isso não afeta gente como a gente, não é mesmo? A gente tem carro blindado, segurança 24 horas no prédio, só anda nas partes da cidade que curiosamente são muito bem policiadas.

O ato de escolher votar no Bolsonaro é movido por outros instintos e sentimentos que pessoas que fazem parte da dita “elite”, dada toda a sua educação, cultura, valores e o mais que lhe foi dado pela vida e pelas suas famílias de bandeja deveriam ser capazes de lidar.

Está bem claro para mim que Marina estava certa. Falta - e muita - qualidade à nossa elite.

A elite que temos é inculta: depois de formar-se na faculdade não lê muito mais do que textões repassados nos grupos de WhatsApp ou assiste vídeos da Joice Hasselmann (assiste por preguiça de ler, diga-se de passagem).

A elite que temos é nouveau riche em sua pior definição: viaja para o exterior frequentemente, mas o faz para os mesmos lugares previsíveis (pacote Disney + outlet + Cheesecake Factory em Orlando; vai a Roma e toma café na Starbucks; quando quer um ar exótico vai a Dubai) e não se esforça em tentar falar a língua local ou entender a cultura local.

A elite que temos não liga para história: acha que isso é coisa de professor comunista, de maconheiro de faculdade pública, que não gera valor pro seu trabalho focado em números e cifras.

Exatamente por isso a falta perspectiva. Não enxerga ou faz vista grossa para o óbvio: Bolsonaro é uma ameaça à democracia e às instituições do nosso país.

Apesar de boçal e estúpido o suficiente para externar sua intenção, Bolsonaro é minimamente esperto para aprender que escaladas autoritárias no Século XXI não se dão com tanques nas ruas a la 64. Se dão corroendo a fé nas instituições e na imprensa livre a la Trump, se dão fazendo referendos atiçados pelo medo para concentrar poder no Executivo a la Erdogan, se dão intimidando a oposição no Congresso e na Suprema Corte e quando não se subjugando os substituindo via canetadas a la Duterte, se dão convocando constituintes fajutas a la Maduro e Mourão.

Se ao invés de apenas andar de balão na Capadócia vocês se dessem ao trabalho de conversar com um taxista turco (de preferência curdo), se ao invés de apenas ler a primeira página do USA Today que colocam na porta do seu quarto no Ritz Carlton em NY, você conversasse com o chauffeur negro do hotel, se ao invés de apenas ir fumar maconha legal e tomar cogumelos em Amsterdam você se desse ao trabalho de ir na casa da Anne Frank, ler o diário dela e ver o que um governo autoritário é capaz de fazer para executar seu projeto de poder, talvez você se desse conta disso.

Dito tudo isso, sei bem que Bolsonaro muito provavelmente vai ganhar a eleição em 3 semanas e sei que vai pintar e bordar com o PSL com a segunda maior bancada do Congresso - obviamente apoiado pelo Centrão (ou você realmente achou que ele ia mudar isso?) e as bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia.

Sei bem disso, mas quero ter a reserva moral de quem votou por valores democráticos antes do próprio interesse econômico e poder falar pros meus netos quando eles puderem votar em 50 anos de que eles o podem fazer por causa de gente como eu, que não ficou calada perante a barbárie. 

E - mais importante - pra poder falar na cara de vocês quando se derem conta de que o Bolsonaro te enganou como um vendedor de carro usado: eu te avisei.

Erick Coser l 🎓@schwarzmanscholars Class of ‘18 @ Tsinghua University

🚲@mobikeglobal Commercial & Expansion Manager for Latin America & Africa

📍Beijing, China




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