STALKEADOS POR LUIZ ALBERTO: PAULO RICARDO

por Luiz Alberto

04 de JULHO de 2021

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STALKEADOS POR LUIZ ALBERTO: PAULO RICARDO

Quem conhece esse colunista, sabe que não me prendo a padrões, métricas e estéticas em minhas entrevistas com meus “Stalkeados...” E neste caso, o entrevistado trocará de lugar com este entrevistador! Pois o meu entrevistado é o cantor, compositor, escritor e ator Paulo Ricardo, um ícone da nossa Música Popular Brasileira. Nesta entrevista, me deixei levar pela história empolgante que envolve sua carreira cheia de encontros e “casamentos” com outras grandes feras! O ídolo não decepcionou este fã, que se limitou a ouvir mais, perguntar menos e deixar fluir essa entrevista que foi uma das melhores dos meus mais de 30 anos de colunista e entrevistador! Então, vamos a ela.

LUIZ ALBERTO: Quem nunca teve uma música do Paulo Ricardo na sua “trilha sonora” da sua vida? PR “esteve” (e está!) nos nossos melhores momentos! Bem vindo querido Paulo Ricardo! Obrigado pelo seu tempo. Vamos começar falando dos 35 anos de Rádio Pirata, que emoção hein? Nem notamos, passaram-se 35 anos!

PAULO RICARDO: Poxa! Você me remeteu a um começo de carreira pré tudo! Quando eu ainda estava na faculdade e tinha uma banda de bar paralelo chegando projeto autoral. Porque o bar é a escola natural de todo músico...

LA: Banda Prisma...

PR: Prisma foi meu primeiro projeto, o embrião, um duo com meu amigo Ismael que tinha muita pretensão naquele ápice dos anos 70, do rock progressivo, uma ramificação do rock que tinha uma influência da música erudita. E esse meu amigo acabou cursando orquestração e regência. Nós nos conhecemos em Brasília. Eu acabei indo fazer um curso de verão, era curso internacional de música que recebia alunos do mundo inteiro. Muito legal, muito rico. E aí, nesse verão do curso, nós começamos a escrever algumas canções para esse projeto que acabou não vingando porque acabei montando uma banda em São Paulo e não concluí essa intenção de voltar a morar em Brasília pra gente então desenvolver a banda. Mas, em São Paulo, eu tive uma banda de bar que se chamava Trilha Sonora. Justamente isso porque a gente tocava de tudo, de Beatles a Moraes Moreira, de The Police a Roberto Carlos...

LA: É isso que eu queria saber...

PR: Eu achei que você ia falar que eu já estive em várias Play Lists né? Que seria a expressão de hoje em dia, mas, quando você buscou esse termo “Trilha Sonora”, eu falei “wow”, era o nome da banda de bar que eu tinha com esse meu amigo, foi a primeira banda de tocar na noite, ele baterista, depois passou a tocar teclado. Mas enfim, são lembranças dos primórdios, dos meus 18 anos...

LA: Lembranças agradabilíssimas... Vou te falar uma coisa, meus verões de Guarapari, nas boates de Guarapari, onde você já fez muitos shows, meus verões eram partir na sexta-feira para Guarapari pra ver Paulo Ricardo, pra ouvir Paulo Ricardo...

PR: Que delícia...

LA: Cara... Isso era muito interessante porque era a trilha sonora da nossa noite, trilha sonora do dia, porque também se tocava na praia, então você estava em todos os momentos, por isso que eu digo, sempre escrevo lá no nosso instagram da PORTFOLIO, o cara é nossa trilha sonora, gente! Todo mundo tem uma, duas, três músicas... Nossa... Essa aí me lembra tal momento. Isso é muito interessante...

PR: Que bom... Fico feliz... Fico orgulhoso em fazer parte desse portfolio e quero agradecer todo o carinho que você tem tido aí com a gente. Que mesmo nesse período tenebroso, sombrio, da pandemia, a gente se sentia conectado e, pelo menos no digital, a vida seguia, né?

LA: Exatamente. Estamos nos conectando de uma forma ou de outra. A gente tem que se conectar se não pira. Vamos voltar lá... Você nasceu no Rio foi para Brasília, Florianópolis e São Paulo. Tem ainda uma paradinha em Londres que vamos conversar daqui apouco sobre isso também. Em São Paulo vocês montaram a banda RPM, em 1989, não é isso?

PR: Na verdade, a história começa nos anos 70. Quando eu voltei de Brasília, eu estava com 16 anos, foi o verão de 78, estava com 15 pra 16 anos e nós estávamos determinados a montar essa banda em Brasília, a Prisma. Então e eu voltei pra São Paulo, naturalmente meus pais já estavam trabalhando em São Paulo, desde o ano anterior, em 77, gostei muito de São Paulo, mas tinha essa conexão com esses amigos em Brasília e estava determinado a voltar e montar a banda lá. Quando fui assistir ao ensaio desse meu amigo da Trilha Sonora, ele era baterista. Ele falou: “você tem que vir porque aqui o negócio é muito sério, é uma banda de cover do Deep Purple e os caras tocam muito!” E quem conhece um pouco de rock sabe que o Deep Purple é uma das maiores bandas do rock clássico...

LA: Com certeza, não há como negar...

PR: ...E com uma pitada daquela influência de música erudita que a gente estava falando. Músicos que tiveram uma formação clássica e que tocavam muito. Verdadeiros virtuosos. Então, quando ele me disse que os colegas de banda dele tiravam as dificílimas músicas do Deep Purple com perfeição, fiquei impressionado e fui assistir ao ensaio. Aí, nesse dia, a banda quebrou um pau porque alguns queriam compor algumas coisas autorais em português, mas o dono da banda, o guitarrista, não queria. Ele achava que essa coisa de rock em português uma coisa ridícula, que o rock era para ser feito em inglês e eles então, acabaram ali. Me perguntaram minha opinião e eu disse; “bem, a gente mora no Brasil então faz sentido cantar em português”. Quando acabou a briga, foi o fim da banda...

LA: Hahaha! A confusão virou...

PR: A confusão... Foi o primeiro ensaio que eu fui. É uma coisa constrangedora. É como você ir na casa de um casal de amigos eles brigarem na frente de todo mundo. Não é só que teve uma discussão, acabou a banda ali, acabou a banda...

LA: No primeiro dia... Você foi o pé frio da situação... (gargalhadas)...

PR: Pé frio pra eles (risos)... Pé quente pra mim. Porque aí o tecladista me procurou e a gente começou a trabalhar. Já era o Luiz Schiavon. E desde os meus 16 anos eu vinha desenvolvendo composições. Um pouco, a princípio, na linha do rock progressivo de bandas que a gente gostava, que faziam muito sucesso na época, Genesis, Yes, Emerson Lake & Palmer, esse tipo de banda, Jethro Tull, ligado com essa corrente que eles chamam de “prog rock”, rock progressivo. Mas a gente não sabia que estávamos na contra mão da história, porque o rock progressivo no final da década de 1970 já estava moribundo, já estava pra morrer como os antigos dinossauros, os dinossauros do rock. Porque em 76 houve na Inglaterra o fenômeno do punk rock, com Sex Pistols, The Clash, enfim, uma explosão fortíssima. Mas para as pessoas que estão acostumadas com a informação em tempo real, internet e tudo mais, não vão conseguir imaginar que, às vezes, um evento, um álbum, um filme, um disco, levava um, dois, três anos pra chegar no Brasil. Anos! Uma loucura. A gente só tinha acesso a alguma informação quando vinha um amigo...

LA: Que trazia um disco para gente...

PR: Então, a informação era muito fragmentada, muito rara, escassa. Depois dos meus 16 aos 20 anos dando murro em ponta de faca com essa banda e paralelamente eu tinha essa outra banda de bar, Trilha Sonora, nós vimos que estávamos fadados a morrer antes de ter nascido. Era um gênero que já tinha dado. E aqui no Brasil nós tivemos um momento muito bem representado pelo Os Mutantes com Sérgio e o Terço com Flávio Venturini, foi um momento que se viveu um pouco de rock progressivo, mas, coisa pequena.

LA: Não foi um grande movimento...

PR: Não foi um grande movimento, não foi. É claro que a fase de Os Mutantes com a Rita Lee e o Arnaldo Baptista é muito mais representativa do que essa fase de Os Mutantes no rock progressivo. O fato é que em 1980 eu passei para o curso de jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da USP e comecei a trabalhar no jornalismo na crítica de música. Escrevia sobre rock em vários veículos até chegar na Som Três, da Editora Três...

LA: Era maravilhosa essa revista...

PR: Maravilhosa, coordenada pelo Maurício Kubrusly. A revista era muito séria, sempre colocava equipamentos de som na capa. Não era uma revista de música, de artista, era uma revista realmente dedicada ao som... Os lançamentos da Polivox... As novas caixas Gradiente... Essa era a capa. Lá dentro tinha muito análise de espectros, de potência e da metade pra frente havia um espaço dedicado a crítica de música, mas, democraticamente dividido em clássicos, os últimos lançamentos do Deutsche Grammophon, dos maiores maestros, releitura dos grandes clássicos, um trecho para o jazz, Miles Davis e tal. O espaço para o rock era mínimo, mínimo e muito pouca gente escrevia. Eu estou falando de 1981. Agora, as pessoas que escreviam lá eram Lulu Santos, Júlio Barroso que tinha fundado a Gang 90, Ana Maria Baiana, que depois foi para Los Angeles falar de cinema, e eu fiquei muito amigo de Ezequiel Neves que me apresentou Cazuza e tudo mais. Então, aconteceu muita coisa, mas o meu projeto musical não estava indo pra lugar nenhum. Era muita dedicação e agente via que era uma cena que não existia e íamos morrer na praia. A banda acabou e em 1983. Aí é que vou fazer essa passagem por Londres, fundamental, como correspondente da Som Três, mas ao mesmo tempo, com a intenção de entender a maneira genial que os ingleses lidavam com isso. Londres ainda é o epicentro da cultura pop do mundo, né? E aquilo mudou tudo. Quando eu volto de Londres no final do ano é que realmente a gente começa a trabalhar no modelo do que viria a ser o RPM, uma banda totalmente antenada com o que estava acontecendo naquela época, na cena da new wave, do tecno pop, com David Bowie, com Duran Duran, com Last Dance...

LA: E nome perfeito, né? RPM! Um nome perfeito...

PR: Sim. Foi uma pesquisa. Foi como se eu tivesse ido estudar qualquer coisa, como direito ou engenharia, e tivesse voltado para aplicar aqui. Foi realmente um momento muito emblemático da história do pop rock. Muita coisa acontecendo e aí a gente pode introduzir muita coisa nova em termos de tecnologia, tanto nos instrumentos e nos arranjos, como também no figurino, maquiagem... Então acabamos tendo esse privilégio ter esse grande cara, o Ney Matogrosso que nos ensinou tudo...

LA: Produziu toda essa...

RP: “Turnê Rádio Pirata Ao Vivo”, que estou homenageando. Ela está completando 35 anos. E tivemos através da super produção do Manoel Poladian, a possibilidade de usar o raio laser, pela primeira vez, numa turnê pelo Brasil. Foi a primeira vez que o grande público...

LA: Eu assisti (risos)... Foi uma loucura... (risos)...

RP: Nós estamos tendo o maior cuidado em produzir com todo o respeito às marcações originais do Ney. Então, o laser entra na hora certa, na mesma música, com aquele efeito, mais ou menos a mesma marcação de palco... Estava sendo uma coisa muito emocionante. Nós já tínhamos feito Rio, Curitiba e na semana seguinte íamos fazer São Paulo, na Áudio, naquela casa bacana ali na Barra Funda, e depois aqui no Rio, naquela casa na Barra da Tijuca, no Ribalta. Foi quando se instaurou a quarentena! A turnê foi interrompida... Agora com uma perspectiva de volta, mas sem datas confirmadas.

LA: Não sabemos ainda o que vai acontecer. Acho que estamos chegando no final, né?

PR: Estamos chegando, mas é um show grande. Não faz sentido apresentarmos um show desse, com todo esse peso, com toda essa importância no show business. Porque o Ney Matogrosso só dirigiu três shows: a gente, Simone e Cazuza. Então, o Ney é um cara que veio do teatro como contra regra, como iluminador, sabe tudo.

LA: Ele é fantástico...

PR: Então, foi um espetáculo divisor de águas porque juntou aquele momento de ascensão do rock brasileiro com tudo o que o Ney trazia, o prestigio, a seriedade e o foco que ele transmitiu. Então se tornou um espetáculo icônico. A necessidade que ele nos colocou de termos uma música mais tranquila gerou a minha sugestão de London London, porque eu tinha acabado de voltar de Londres. A música acabou sendo um grande sucesso espontâneo, não havia sido lançada e começou a ser pirateada por todas as rádios por onde quer que a gente passasse.

LA: Esse era o grande problema da época...

PR: É.... Acabou se tornando uma meta linguagem de ser pirateado no show Rádio Pirata, que se transformou no álbum Rádio Pirata, que foi um dos mais vendido da indústria fonográfica brasileira. Foram dois anos de uma loucura muito grande e de uma experiência que a gente nunca pensou, nunca sonhou que pudesse acontecer nessa dimensão.

LA: Muitas cópias vendidas na época. Começou vendendo, de cara, 200 mil?

PR: Dois milhões e quatrocentos mil! Nós vendemos 250 mil antes de sair. Já estava vendido. Era uma loucura. Também é muito difícil para as pessoas entenderem, os jovens eu quero dizer, o que era um disco pirata, o que era uma rádio pirata. O termo “pirata” dos anos 90 pra cá adquiriu uma conotação pejorativa e até criminosa. A pirataria se transformou na indústria da cópia. Mas, no nosso tempo, o disco pirata era uma cópia rara em vinil que os fãs ardorosos captavam de um show na clandestinidade. Havia uma revista nos shows para saber se você estava com gravador. As pessoas burlavam aquela vigilância, gravavam o show, pegavam aquela gravação, 90% das vezes muito tosca, com aquele gravadorzinho, porque o fã não quer saber qualidade, o fã quer a raridade. O fã quer aquela coisa que ninguém tem. Eu mesmo tinha um ou outro porque era muito caro... Eu tinha um álbum do Led Zeppelin pirata onde o Keith Moon, que era baterista do The Who, tocava Whole Lotta Love do led Zeppelin, quer dizer, isso é coisa que provavelmente aconteceu numa noite e era um registro único, maravilhoso. A rádio pirata era totalmente subversiva. A ideia era comprar o equipamento de rádio difusão e invadir mesmo o “dial” sem autorização do governo, do ministério, de nada. Era uma coisa tipo os hackers das ondas de rádio. E essa metáfora era muito interessante com todo o romantismo da coisa do pirata, a bandeira da caveira. Agora não imaginamos que nós fôssemos ser pirateados, né?

LA: (gargalhadas) Que o feitiço virasse contra o feiticeiro... (gargalhadas)

PR: E tivemos que contra atacar lançando um disco ao vivo tendo apenas um disco de estúdio. E esse show, Rádio Pirata ao Vivo é responsável pelo lançamento desse disco Rádio Pirata ao Vivo e de todo o fenômeno que foi essa viagem que merece ser revista e homenageada. Mas, claro, é um show grande, todo mundo está esperando e ninguém pode ficar ali com distanciamento e máscara. Vamos esperar acabar essa loucura...

LA: É já estão acontecendo algumas coisas...

PR: É.... O Foo Fighters já está com apresentação lá no Madison Square Garden, em Nova Iorque, com casa cheia...

LA: Que maravilha...

PR: Aos poucos os países vacinados... Dá uma inveja...

LA: Dá uma inveja, mas dá uma esperança também...

PR: É.... Mas estamos chegando lá. Vamos aguardar um pouquinho mais pra voltar. Estamos fazendo as coisas que podemos fazer sem contato com o público. Uma coisa que sempre quis fazer eram camisetas legais, porque a camiseta é parte da história de toda banda, do fã com a banda, então, eu consegui realizar... Essa camiseta aqui, por exemplo...

Então ele levanta e mostra uma camiseta linda! Morri de inveja, mas já providenciei a minha... rsrs

LA: (me referindo à camisa) Que show!!! Que máximo, hein?

PR: A foto é da minha mulher, Isabella Pinheiro...

LA: (cortando) A bela Isabella! Que fotografa maravilhosamente bem... E é um amor de pessoa.

PR: E a parceria com a loja PR. A gente aos poucos vai fazendo o que dá pra fazer. Mas, obviamente, nada substitui o show. Fizemos lives, fizemos shows em drive in, mas por trás disso tudo tem uma melancolia, uma espécie de liberdade condicional, uma sensação estranha.

LA: Paulo Ricardo, tem uma coisa que é importantíssima na sua carreira. Você recebeu a benção de ninguém mais, ninguém menos de Yoko Ono para gravar uma das músicas mais maravilhosas de todos os tempos. Me conta como é que foi essa história.

PR: Essa história é muito, muito bonita pela simplicidade dela. É a típica história de que sonhos podem se realizar, sabe? Sou beatlemaníaco, sem dúvida nenhuma, minha história com a música começa com Roberto Carlos e a Jovem Guarda e logo depois chegam os Beatles atropelando tudo e eu sou, sem dúvida nenhuma, um beatlemaníaco. Em 2000 eu tinha acabado de gravar um álbum, estava quase pronto, praticamente fechado. Mariozinho Rocha, que era diretor musical da Som Livre me ligou e me perguntou se eu faria uma música no risco, porque a intenção que ela fosse a abertura da próxima novela das sete que vinha cercada de muita expectativa porque a Sandy seria a protagonista. Sandy e Junior foram muito bem no seriado deles e, finalmente, a Sandy iria para as novelas num contexto hippie, Maitê Proença seria sua mãe, uma coisa muito legal e eles queriam muito Imagine na trilha sonora para abertura da novela. Porém, a Yoko nunca tinha dado a autorização de regravação pra ninguém. E quando eles pediram, ela pediu pra ouvir. Que é uma coisa muito coerente, muita justa. E você vê que é uma pessoa que administra a obra do John Lennon com muita seriedade, muito critério. Não é uma pessoa que falou “Não!” Mas também não falou “tudo bem”. Disse “deixa eu ouvir”.

LA: É muito legal essa história...

PR: Trinta anos depois, né? A música é de 71 e isso aconteceu em 2000, virada pra 2001. Trinta anos depois, eu falei: “Ô Mariozinho... Eu gravo a obra dos Beatles toda no risco.

LA: Ahhhhhh...

PR: “Eu sou apaixonado por isso. Deixa comigo”. Eu pensei justamente em subverter aquele clima levemente fúnebre que a versão original adquiriu quando John Lennon morreu. O piano é uma coisa simples, mas ela é sóbria também. Então ficou aquela música associada ao assassinato. Da mesma forma que a Canção da América, do Milton, ficou associada a morte de Ayrton Senna. Então a primeira ideia foi, deixa eu tirar esse clima de tristeza, de solenidade e partir para uma versão completamente diferente. Então, peguei o violão e fui para uma coisa mais leve, botar um pouco de swing, tornar uma coisa dançante e resgatar a mensagem original que é de esperança, um sentimento de amor universal. Ela não é uma música triste. Muito pelo contrário, é de esperança. E aí eu fiz, com uma banda maravilhosa, uma banda incrível, até hoje boa parte da banda é da Globo. Está lá no The Voice, Ricardinho Palmeira, André Carneiro, o Serginho Mello na bateria, que toca com Lulu. Então fomos para o estúdio e fizemos a versão. Aproveitei e fiz uma versão em português que eles me pediram. Eles iriam decidir o que ficaria melhor. Bom, pra surpresa de todos, a Yoko deu a autorização, deu o OK, aprovou a versão.

LA: Nossa... Que barato...

PR: Ficamos felicíssimos. Fizemos um clipe, a música no maior sucesso, número 1 no Brasil, tocava loucamente em todas as rádios, foi o maior sucesso na novela e eu tendo feito o clipe, perguntei para a gravadora: “Podemos pensar em exibir este clipe no Fantástico?” E então eles disseram; “O Fantástico não é mais o Fantástico de antigamente” que era como a MTV. O Fantástico que produziu todos os primeiros clipes até a MTV chegar ao Brasil em 91. Então, toda essa produção, todos os clipes da nossa geração, coisas incríveis, icônicas, foram produzidas pelo Fantástico. Mas, depois o Fantástico parou de exibir três clipes todo domingo como eles faziam...

LA: Uma pena, uma pena...

PR: Uma pena. Uma perda. A relação com a música e televisão é complexa, o Ecad, mas tive a seguinte resposta: “O Fantástico está exibindo clipes que tenham um gancho, um link jornalístico”. Aí eu falei, um link jornalístico, que tal se eu entrevistar a Yoko?

LA: (gargalhadas que significaram internamente para mim: “Puta que pariu, que ideia genial!!!)

PR: Aquela coisa assim da criança que não sabe, que acha que tem o pote de outro no fim do arco Iris...

LA: Mas isso é muito legal. É o que vai, o que empurra. Hoje a gente tem muito mais medo de fazer as coisas do que antes.

PR: É como eu estava dizendo. Aí nós já estávamos em 2000, já existia a internet, mas, nos mandamos um fax pra ela. Não é como hoje que você entra no instagram do Justin Bieber e diz: “Justin... me liga!

LA: (risos)

PR: Havia uma distância grande. Pra mim, o mais difícil era conseguir a autorização da gravação de Imagine. Dentro deste contexto, o não nós já tínhamos. Pedimos a entrevista a ela, como Repórter por Um Dia do Fantástico e, pra surpresa de todos, ela deu. Autorizou.

LA: Cara... Muito bom isso.

PR: Então, eu vou para Nova Iorque, encontro a equipe do Fantástico e passo lá três dias fazendo essa matéria que ficou belíssima. Oito minutos no Fantástico dedicado ao período que John e Yoko viveram em Nova Iorque. Mostrando o primeiro endereço deles no Village, depois no Edifício Dakota, onde foi covardemente assassinado, o Memorial Strawberry Fields no Central Park e, no dia seguinte, a cereja do bolo, que foi a entrevista da Yoko numa emissora japonesa. Foi uma coisa incrível e, felizmente, eu tenho o material bruto que foi quase duas horas de papo. Ela perguntou de bossa nova, de Mutantes, se mostrou uma pessoa muito doce, me deu toda a abertura para falar de John, do romance deles, desse amor incrível. Um sonho. Deu tudo certo. Vou ser eternamente grato. Nesse momento eu perguntei pra ela: “Yoko, todo mundo sabe que você nunca autorizou nenhuma regravação de Imagine, por que você autorizou a nossa? Fiquei muito feliz e tal...” Ela disse: “Porque você não procurou imitar o John. Você não quis ficar na cola dele. Você não soou igual a ele. Fez uma coisa completamente diferente”.

LA: Exatamente o que você disse antes...

PR: O que eu tinha pensado, né? Eu não pensei em agradar a Yoko, mesmo porque, quem sou eu pra saber o que iria ou não agradar a ela? Eu procurei raciocinar como um fã apaixonado pelos Beatles, por John com um olhar apaixonado sobre a obra dele e a Yoko se conectou com isso. Então, é uma música que, desde então, está em todos os meus shows e é uma música que vai ter um peso muito grande no próximo show que vou fazer enquanto os grandes shows não voltam. Montamos um espetáculo mais intimista, de violão e voz, e ‘Imagine’ é essa levadinha gostosa no violão...

LA: (cortando) Não importa! O que importa é a gente estar ouvindo você, porque a gente precisa te ouvir PR.

PR: Obrigado! As pessoas querem ouvir boas músicas. A boa música vai bem em ritmo na versão do DJ, na versão do forró, na versão acústica, na versão elétrica, você tem que ter boas canções. Como venho de um momento da música onde havia explosão dos elementos eletrônicos, o começo, o embrião da música eletrônica, os primeiros sequenciadores, baterias eletrônicas, a minha sonoridade sempre foi muito densa. É uma surpresa muito agradável, muito musical, procurar arranjos acústicos leves, não só acústicos, sem bateria, violão e voz mesmo. Sou eu e o guitarrista, o Ícaro, mostrando as músicas totalmente nuas, totalmente despidas daqueles acessórios todos, daquelas referencias anos 80, dançantes. As boas músicas se sustentam e dão oportunidade para gente ter um pouco mais de intimidade com a plateia e reler, encontrar novas nuances nas músicas que a gente já conhece. Está sendo muito legal e para lançar essa turnê, eu estou terminando um álbum, também, com seis, sete músicas, para redescobrir alguns sucessos na simplicidade e despojamento da voz e violão. Temos ‘London London’, ‘Dois’, aquele momento romântico que foi minha parceria com Michael Sullivan e foi o maior sucesso. E, aproveito para fazer coisas que são totalmente eletrônicas na nossa versão e que vão ficar bem diferentes como ‘Flores Astrais’ do Secos e Molhados e coisas novas.

LA: Nossa... Vai ficar demais!

PR: Tem o feet com o Zeeba. Zeeba que estourou no mundo inteiro com ‘Hear Me Now’ com Alok. Mas, que na verdade, eu conheci com 18 anos. Ele é filho do meu médico, Dr. Zeballos, e ele me pediu para ouvir o material do filho, pra saber o que eu achava. E eu falei, “olha, ele é muito bom, tem muito talento, gostei de uma música aqui, vou fazer uma parceria com ele”. Ele eu fizemos uma música que se chama ‘Eu Não Sei’ e que gravei no CD de 2016, ‘Novo Album’, é um CD pelo qual tenho o maior carinho, que tem o meu filho Luiz Eduardo na capa.

Ele me mostra a capa que é linda! Veja a foto na matéria.

LA: Olha... Que coisa mais linda, gente! Muito fofo esse carinha...rsrs

PR: Agora ele já está com sete anos. Foi uma surpresa muito boa, a qualidade, o talento do Zeeba e nós estamos regravando esta música nesse trabalho de violão e voz. Meu feet nesse projeto de violão e voz é o Zeeba, que foi a primeira música lançada por ele, através de mim como compositor, tenho o maior orgulho. Então é um trabalho que por muitos anos sempre me esquivei, porque venho do rock e o rock pressupõe guitarra, baixo, bateria, aquele barulho todo e eu não conseguia visualizar o meu repertório, minhas músicas...

LA: Se ver no contexto, né?

PR: É.... Eu associava a coisa do violão e voz a um lado mais MPB, João Gilberto, Caetano, Gil, aquela coisa do acústico. O acústico chegou nos anos 90 com muita força, mas, mesmo assim, tinha bateria e tudo mais. Pouca gente chegou a fazer acústico só com violão. Porém, a pandemia mudou isso tudo. E eu me vi longe das bandas, dos ensaios, dos palcos, dos shows, do barulho e me voltei para o violão. Comecei a fazer algumas lives de Instagram, a tocar as músicas que eu gostava, me exercitando, tirando minhas próprias músicas no violão, e realmente comecei a ter esse tempo que a vida pré pandemia não nos dava, correndo pra lá e pra cá. Tive esse tempo de ter essa imersão no violão e descobrir que as músicas mais eletrônicas do repertório têm uma forma, uma leitura que elas ficam bem interessantes e completamente diferentes com uma outra pegada, um outro olhar. E aí fiquei com vontade de fazer um show todo de voz e violão.

LA: Você botou um pouco de eletrônico na última versão de ‘Vida Real’. Aliás, antes de você falar disso, como você consegue fazer 21 versões diferentes para uma música? Acho isso o máximo da criação. Todas diferentes. Nada tem a ver com a outra.

PR: Na verdade, eu não chego ter 21 versões, mas de 2012 pra cá eu tenho sim uma versão diferente a cada ano. O que aconteceu? Chegou o momento em que nós tivemos uma primeira versão que ficou três anos no ar, de 2001 a 2004. Em 2005 o Boninho me pediu uma nova mais rápida, mais pesada, um toque de eletrônica e eu mostrei aquela versão que o Brasil reconhece como a versão mais clássica... Que tem aquele sonzinho assim: “ten, ten, ten, ten...ben...ben...ben...ben...” Que é a versão que eu sempre fiz ao vivo, uma versão muito rock, muito energética. Enfim, essa versão reina até 2012, quando eu já comecei. Com 12 anos de programa, tive vontade de ter a música, uma música tão emblemática, tão importante pra todo mundo que está lá, eu gostaria que ela fosse tocada nas festas. Eu não gostaria que ela soasse antiga, sabe? O tema de “Jeannie é um Gênio”, sabe?

LA: (risos)

PR: Eu gostaria que ela soasse atual, pra tocar junto com o que está tocando, com canções que estão estouradas naquele momento, nacionais ou internacionais, e tivesse a mesma pegada. Então eu começo a ficar ligado no que está tocando e me proponho esse desafio de a todo ano criar um arranjo diferente, produzir uma vibe diferente par aquela galera, para aquele elenco daquele ano. E aí procuro ficar atento também ao que está acontecendo no Brasil e chamar diferentes DJs, produtores, até que eu cheguei, eu acho, no auge com esse último tema, com meu grande amigo, Gui Boratto, que é um artista completo. Não é justo, nem correto chamá-lo de DJ, porque ele é um artista da música eletrônica, mas ele é produtor, ele toca tudo, ele tocou todos os instrumentos ali, tocados mesmo que estão nessa versão de 2021, e eu adorei. Ela tem um gosto retrô, é a versão mais saborosa e nasce do meu desejo de fazer parte daquilo. De fazer parte daquele momento, de fazer o programa atual e não um programa antigo que ainda se mantém. Como o elenco é renovado eu tenho também essa possibilidade de renovar o tema. Mas Luiz Alberto, eu confesso que pela primeira vez eu estou tentado a não mudar. Eu gostei muito desse tema.

LA: É né... risadas

PR: Talvez eu permaneça com ele mais um tempo. Eu estou pensando. Vou conversar com a galera. Normalmente o Boninho, o Rodrigo Dourado, o diretor, eles gostam muito. “Não, não, não... você não vai fazer nova, não precisa, a última está muito legal...” Aí eu falo, “mas eu estou com uma ideia aqui e acho que tem uma coisa que pode ficar mais legal”. Então, sempre funcionou como um desafio e um gancho para me manter a par, antenado, sintonizado com tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo.

LA: Para nossa sorte você não virou jornalista, hein?

PR: Olha só o que aconteceu. Quando eu comecei eu tinha na minha mão um projeto gráfico maravilhoso de revistas posters. Os fãs mais antigos tem essas revistas posters que foram escritas pelo Paulo Ricardo Medeiros, meu nome de jornalista. Jornalista tem que ter sobrenome, né? Então, você pegava uma revista dos Rolling Stones ia abrindo e aquilo virava um pôster.

LA: Fanzine, né...

PR: Hoje em dia o impresso está acabando. O jornalismo tem que se reinventar. Eu ainda tive grande prazer fazendo grandes matérias. Sobretudo para a Folha de São Paulo. Matérias esporádicas como a morte do Michael Jackson, uma matéria muito marcante, que até girou uma controvérsia porque os fãs mais xiitas ficaram incomodados com as menções que eu não poderia deixar de fazer, a pedofilia, não afirmando que havia isso, mas a turbulência. De repente a Folha me ligava e dizia: “Olha, Elton John disse que Jesus Cristo era gay, você quer falar sobre isso?” Eu fui fazer a matéria. Eu estava em Nova Iorque, fui ver o show do U2, fiz uma matéria sobre o show. Então eu fiz várias matérias, tive algumas colunas, no Folha Teen sobre álbuns clássicos, foi muito legal. Então, escrevi, continuei escrevendo, colaborando com os veículos. Mas aí, vêm as redes sociais e a gente começa ter que escrever mesmo, e eu curto, eu curto. Eu não preciso abandonar totalmente o lado jornalístico, vou sempre falar de alguém, ou estou fazendo um post, por exemplo, dos 80 anos do Bob Dylan, ou do Roberto Carlos, eu acabo trazendo um pouco desses quatro anos dedicados ao jornalismo musical onde eu biografei alguns grandes e é uma outra linguagem, é a prosa que tem a ver com o letrista. Eu fiz algumas coisas na TV, as lives foram um exercício porque é praticamente um programa, com três horas de duração, interagindo com fãs, recebendo vídeos dos amigos, então, tudo muito interessante, tenho amigos jornalistas até hoje e gosto de fazer parte dessa efervescência e isso me estimulou muito como letrista. Na música pop a gente é uma espécie de cronista do que está acontecendo hoje. A última música nova que a gente lançou fora o BBB21 foi ‘Tempo de Espera’ que é justamente com tema da quarentena.

LA: É o tempo de espera, não tem o que fazer...

PR: É... Mas foi um desafio também em poder fazer o clipe com a minha mulher, a Bella dirigiu o clipe em casa, eu mandei para vários amigos e o Faustão acabou exibindo o clipe no Domingão. Foi uma coisa muito louca. O Faustão tá na casa dele exibindo o clipe no Domingão, que foi feito na nossa casa e a gente em casa, assistindo o Faustão na casa dele e sabendo que o Brasil inteiro estava vendo aquilo...

LA: Muito louco. Eu gostei demais desse clipe que está na sua página, pauloricardo.com , você cantando Cazuza. O que que é isso?! É emocionante. E aí eu vejo o Galvão Bueno dentro do clipe... O que que ele foi fazer lá? Hahaha!

PR: Foi o primeiro... O Brasil tem uma comunidade grande nos Estados Unidos. E já existe esse Brazilian Day em Nova Iorque há muitos anos. Então aquele foi o primeiro Brazilian Day em Orlando, que também tem uma comunidade brasileira muito grande e o Galvão tem casa lá porque o filho dele mais novo faz faculdade Orlando. Então nós estávamos ali juntos e foi um barato, porque ele apresentou o evento e nós aproveitamos para fazer uma espécie de clipe jornalístico, como o Fantástico gosta.

LA: Muito legal...

PR: Cazuza tem que ser sempre relido...

LA: Reverenciado, revisto, enfim, Cazuza é Cazuza.

PR: Você sabe que eu coloquei, tá lá no meu instagram um spoillerzinho (assista aqui) de um encontro que eu tive com o Arnaldo Brandão, o parceiro dele em ‘O Tempo não Para’, que pra mim é uma das letras mais potentes da Música Popular Brasileira e estamos, justamente, fazendo parte deste documentário dirigido pelo Paulo Henrique Fontenelle que dirigiu meu último DVD, o Sex On The Beach, falando de arte na pandemia. Nós estamos ali falando de música, mas tem Vicky Muniz falando de artes plásticas e aí a gente faz ‘O Tempo não Para’ no violão e é impressionante como a música continua forte, relevante como sempre foi. E eu, em 2019, fiz quatro regravações de clássicos do Cazuza, O Tempo não Para, Pro dia Nascer Feliz, Exagerado e Ideologia porque eu quis mostrar Cazuza com essa sonoridade de hoje em dia para quem não conhece como se fosse um jovem compositor que tivesse chegado na minha mão e eu tivesse que fazer uma regravação, uma nova leitura.

LA: E o Paulo Ricardo ator? Como foi essa experiência?

PR: Uma viagem que eu gostaria de ter feito mais. Gostaria. Porque eu fiz uma novela de época e é tudo muito específico. Eu queria ver como me sairia numa produção contemporânea. Numa coisa mais urbana, num contexto mais moderno. Mas, aquilo me pegou de surpresa e foi um daqueles momentos comparáveis a estar ali frente a Yoko Ono. De repente, eu que nunca fiz nem teatrinho infantil, nada, zero experiência como ator, estava numa mesa, no Projac, numa gravação no cabaré da Gabriela Duarte sentado com Paulo Goulart, Raul Cortez...

LA: Só fera!!!

PR: E John Hebert, que era meu pai na novela. Eu olhava para aquilo e era surreal. Você imagina olhar para teu lado e na mesa e estar o Raul Cortez. Eu falava pra ele, “Raul, e estou apavorado, eu estou muito nervoso” e aí ele falou pra mim, “Ah... brinca!” Nossa, que conselho de gênio. Todos eles muito gentis e aquela produção hollywoodiana, 500 pessoas responsáveis por levar um capítulo da novela. Essa coisa religiosa da nossa cultura e, às vezes, eu via a pessoa saindo do Projac, perto de Jacarepaguá, mais distante, levando para a emissora que ainda fica no Jardim Botânico que é, digamos, onde eles dão o play. O cara saindo a 15 minutos, o motoboy indo com a fita da novela que vai passar, já rolando o Jornal Nacional... As pessoas “Meu Deus do céu!”. Tudo num momento muito louco, porque o Benedito Ruy Barbosa, o autor da novela, adoeceu, perdeu a mãe e não estava dando conta de entregar os capítulos...

LA: Sim, esse episódio foi triste, ele estava entregando na última hora, enfim...

PR: Todo mundo estressado e então, o Valcyr Carrasco assumiu a novela e aí tudo muda, né. É como “aperte os cintos que o piloto sumiu!”

LA: (risos)

PR: Muda o autor, os personagens mudam de perfil psicológico, fica aquela loucura e os capítulos chegando no dia. Agora, eu não tinha experiências de outras novelas, pra mim era assim...

LA: Sim, claro.

PR: Chegando no dia, estava tudo normal... Eu, felizmente, tenho o costume de corar letras. Decorar letras é uma coisa que eu faço desde criança. Então, não me parecia uma tarefa tão difícil. E as pessoas elogiaram muito isso, porque está todo mundo trabalhando, ninguém tem tempo a perder com um ator errando ali, e aí alguém já fala “iii... esse cara não é ator, vai dar o maior trabalho aqui...

LA: (cortando) Quem chamou esse cara para vir aqui... (eh eh eh...)

PR: Pô, quem chamou foi Luiz Fernando Carvalho, um dos maiores diretores da teledramaturgia brasileira e do mundo, foi o maior orgulho pra mim...

LA: Que demais.

PR: E ter recebido críticas boas da Veja, veículos sisudos, como o Estado de São Paulo, todo mundo me elogiou, até por esse profissionalismo de ter o texto decorado. E também a resposta. O público é impressionante Luiz Alberto, porque eu sou popular, sou conhecido há mais de 30 anos, com um trabalho, graças a Deus, que atingiu de A a Z, de 8 a 80, há muito tempo na televisão, Chacrinha, Faustão, em todo canto, mas, a novela triplica a tua visibilidade. A novela das 9 é uma loucura. Gente que eu nunca esperaria que me parasse na rua pra comentar alguma coisa, sabe? O cara parou o carro, o motorista abriu a posta e ele desceu e veio falar comigo; “Eu só queria te falar que eu sou judeu e você está fazendo um judeu na novela muito bem. Está de parabéns!

LA: Faz muito bem, né?

PR: De repente eu estou no shopping e vem uma senhora, sabe, aquelas senhoras que provavelmente nunca ouviu o rock brasileiro e me fala: “Ah... estou gostando de ver o Samuel, você está fazendo muito bem...” Então... É realmente um fenômeno, uma loucura de comunicação e pra mim foi uma honra contracenar com todos esses atores.

LA: E abranger de uma forma que você não consegue entender...

PR: E todo mundo muito profissional. O Brasil produz as melhores telenovelas do mundo. Isso aí a gente sabe. A Globo exporta para mais de 100 países desde sempre, então, são profissionais, cada um ali, os melhores do seu ramo. Cabelereiro, maquiador... Olha só pra você ter uma ideia da loucura que é. Quando eu estava em cena, estava em cena fumando um cachimbo lendo o jornal. Tem três pessoas de olho em mim. Uma pessoa só olhando para minha maquiagem, pra ver se eu transpiro, se eu estou brilhando, o cabelo e tal. Outra pessoa está só olhando para o meu figurino pra ver se está tudo certinho, se tem alguma coisa fora do lugar... E tem uma outra só olhando para a caracterização da época. Eu estava lendo um jornal da época! Eu acendo o fósforo de uma marca que existia na época. É uma coisa muito minuciosa, muito competente e trabalhar, contracenar com Ana Paula Arósio, Gianecchini foi uma experiência incrível e por isso tudo só tenho boas lembranças e adoraria fazer uma outra coisa, um filme, uma novela, teatro... Se me convidarem eu estou propenso.

LA: Então, este ano ainda, a gente espera, show do Paulo Ricardo...

PR: Com certeza! Com certeza! Nós estamos apenas esperando aí... O problema desse quebra-cabeça é que cada cidade tem uma dinâmica, de casos, de UTI, de vacinação. Então a gente não consegue montar uma turnê nacional. Temos que trabalhar com segmentos e tal. A ideia da voz e violão é estar nos teatros de todo o Brasil começando ainda este ano. Paralelamente vamos ter os 35 anos de Rádio Pirata voltando depois dessa interrupção terrível para todos nós. Mas sobretudo, o pessoal do entretenimento foi o que mais sofreu. E estamos também vislumbrando o Acustic Live Volume 2. Um projeto que eu fiz há 15 anos e que foi muito bem recebido. Fiz vários clássicos, Beatles, Stones, Elton John, Bob Dylan... É um trabalho que ainda hoje as pessoas pedem e vamos preparar um volume 2 e, claro, paralelo a isso, as músicas inéditas que, aliás, eu vou ter uma música inédita nesse projeto de voz e violão que estou gravando que devo terminar agora, semana que vem e a gente já começa a mixar. Eu tenho uma música inédita que é uma surpresa, uma parceria inédita que eu não vou contar ainda, porque já existe outras coisas com ele sendo feitas, sendo preparadas. Mas, é o que costumo dizer, é maravilhoso poder trabalhar em casa. É maravilhoso poder fazer como eu fiz à distância. Tempo de Espera eu compus aqui, mandei para o Tuco Marcondes em São Paulo, o Tuco tem estúdio na casa dele, gravou tudo e mandou de volta, eu mandei para o baterista, mixou, botei voz, minha mulher fez o clipe... Dá pra fazer esse bem bolado, esse delivery da música...

LA: A gente tem que se virar, não é? Não tem jeito, porque...

PR: “Show must go on!” “O show tem que continuar!” Não pode parar! Mas, nada substitui o show ao vivo. Nada substitui...

LA: A emoção...

PR: É como você dizer que pode se relacionar com alguém por dois, três anos só por Zoom. Tem um relacionamento afetivo, amoroso, não dá! Tem uma hora que você tem que abraçar, tem que beijar na boca, não dá! Se você pensar numa música clássica, um recital, uma coisa mais sóbria... Mas o rock é feito para extravasar... O rock é uma catarse... O rock é uma explosão, as pessoas querem dançar, pular... E você está ali tomando uma cerveja, ninguém vai conseguir assistir ao um show de máscara, duas horas de show com a máscara.

LA: Show de rock tem que ser com latinha na mão e abraçado com os amigos... (gargalhadas)

PR: Exatamente. Exatamente. Todas essas ferramentas, o Zoom, as lives no instagram, os canais no YouTube, tudo isso chegou para ficar. Fiz algumas lives até para empresas que tinham umas 200 pessoas cada uma na sua casa, com sua taça de vinho, com seu violão, seus filhos, cachorro, curtindo um show e eu estava num estúdio fazendo a live para aquelas pessoas que estavam conectadas. E acho que isso vai continuar. É mais uma possibilidade. Mas, eu acho que já deu. Pelo amor de Deus! Temos que voltar. Já deu! Já deu o que tinha de dar.

LA: Já deu mesmo. Foi tudo muito legal, a tecnologia ajudou muito, a gente adorou, mas é só mais uma coisa que veio que a gente descobriu e a gente espera voltar a abraçar. Eu estou com vontade de abraçar as pessoas.

PR: E do ponto de vista da música, no tipo de coisa que eu faço, a gente compõe, é uma sensação maravilhosa, é muito gratificante terminar uma música, fica sempre ali mexendo numa palavra, numa rima... Quando você termina uma música você fica muito feliz. Vai para o estúdio e aí é uma outra viagem, faz assim, bota um efeito, bota aqui, diminui, tal e não sei o quê. Agora, o orgasmo da música se dá ao vivo, quando você pega todo aquele trabalho que teve e apresenta para as pessoas.

LA: Exatamente...

PR: Então, tudo isso que está acontecendo tem essa sensação de coitos interruptos...

EU: Já gargalhando muito, porque foi perfeita a metáfora!

ELE: É um sexo tântrico, sexo tântrico que a gente não goza nunca...

EU: (gargalhadas)

PR: Pelo amor de Deus, né?

LA: (Risos) Cara, eu não queria terminar essa entrevista nunca mais, sabe por quê? Porque a gente tem uma aula, a gente aprende, entrevista é sempre muito bom. Principalmente com um cara, com uma fera do como você que sabe tudo de música...

PR: Obrigado. Eu tive o privilégio de estar num momento muito rico e ainda estar aqui para contar história literalmente, mas com um olhar sempre de estar começando agora, sempre com muita humildade, querendo aprender, querendo entender. E nunca fico me deixando abater ou pensando que naquela época era melhor. Acho que esse amor pela música faz com que a gente sempre consiga encontrar alguma coisa nova e diferente. Estou aí, compondo com o Zeeba, com gente nova, regravando coisas que estou gostando, que tem a ver comigo e esse momento vai trazer uma explosão de coisas boas, explosão de alívio. Teve um tempo para todo mundo dar uma repensada em tudo, se aprofundar em algumas coisas, nas questões realmente importantes da vida de cada um e da vida da gente como sociedade, como planeta e tudo mais. Então, depois da tempestade vem a bonança, acho que agora dá pra começar a ver a luz no fim do túnel e bola pra frente.

LA: Com certeza, com certeza...

PR: Foi um papo muito gostoso e a gente tem uma série de coisas no digital que nunca imaginou ter. As tendências, as linhas editoriais pra todo mundo e é muito gostoso ver que a PORTFOLIO sempre esteve do nosso lado, sempre esteve acompanhando tudo que estamos fazendo. De repente você fala, “ah.. que legal!”, a revista deu uma nota sobre isso...

LA: Sempre, sempre... Aqui todo mundo é seu fã!

PR: Obrigado, obrigado.

LA: PR, muito obrigado, muito obrigado por esta entrevista maravilhosa...

PR: Eu que agradeço!

LA: Obrigado! Como eu disse na abertura, obrigado por fazer parte da trilha sonora da minha vida...

PR: Espero continuar fazendo...

LA: E vai continuar fazendo. Obrigado pelo que você nos deu e o que você ainda vai nos dar durante muito tempo!

PR: Eu que agradeço...

LA: Foi muito bom falar com você.

Pois então, meus queridos e amados leitores, chega ao fim uma das melhores entrevistas que o colunista aqui de vocês fez com muito carinho e atenção para trazer o entretenimento de qualidade. Espero que tenham gostado. Beijos e abraços absurdamente carinhosos do seu LA!

P.S. Esta entrevista se tornou ainda mais fácil porque o time, meu e dele, é o Fluminense! Todo mundo que é Flusão se entende bem!

Fotos: Isabella Pinheiro

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