17 de MARÇO de 2026
Uma peça esquecida da memória urbana de Vitória está prestes a retornar ao seu lugar de origem. A escultura em mármore do deus Hermes, que durante décadas integrou o conjunto de alegorias da Escadaria do Palácio Anchieta e da Praça Cecília Monteiro, no Centro Histórico da capital capixaba, foi localizada após quase meio século de ausência. O reencontro da obra é resultado de uma investigação conduzida pelo professor e historiador Raphael Teixeira, em uma ação conjunta com pesquisadores ligados ao Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
A história do desaparecimento da peça remonta ao final da década de 1970. Durante uma forte chuva, partes de uma árvore caíram sobre a escultura instalada na Praça Cecília Monteiro, danificando seus braços, o elmo e parte do rosto. Na época, a obra foi retirada do local para restauração. O pedestal permaneceu na praça, mas a escultura nunca retornou. Com o passar das décadas, o destino do Hermes tornou-se incerto e sua presença foi gradualmente apagada da memória pública.
O conjunto escultórico ao qual Hermes pertence foi instalado em 1912, no contexto das reformas urbanas promovidas pelo governo de Jerônimo Monteiro, que buscavam modernizar a capital capixaba e aproximá-la dos padrões urbanísticos das grandes cidades brasileiras. Além da figura do deus dos comerciantes, o conjunto inclui esculturas em fontes, como o Menino e a Menina com Delfim, e alegorias das estações do ano (Verão, Outono, Inverno e Primavera), além da alegoria da Indústria. Essas peças compõem um importante marco da paisagem cultural do Centro Histórico de Vitória.
A ausência do Hermes foi percebida por moradores e pesquisadores ao longo dos anos, mas a falta de registros dificultava qualquer tentativa de localizar a obra. Nem mesmo o Catálogo de Monumentos Históricos e Culturais da Capital, publicado em 1992 pelo pesquisador Willis de Faria, fazia referência à escultura, o que indicava que seu desaparecimento já era antigo naquele momento.
Foi apenas em 2018 que o professor Raphael Teixeira iniciou uma busca mais sistemática por informações sobre o monumento. O interesse surgiu após a leitura de uma reportagem sobre o abandono de monumentos no Centro de Vitória. Na matéria, mencionava-se o desaparecimento de um suposto busto do deus Hermes que teria existido na Praça Cecília Monteiro.
“Até então eu nunca tinha ouvido falar desse busto, mesmo tendo participado de aulas de campo no Centro durante a graduação em História”, recorda Raphael. “Aquilo despertou minha curiosidade e comecei a buscar informações, mas durante muito tempo não encontrei nada.”
A investigação ganhou novo fôlego quando o professor passou a recorrer à memória coletiva de moradores e a arquivos históricos. Mesmo assim, por anos não surgiram pistas concretas. Fotografias antigas da praça confirmavam apenas que o pedestal permanecia vazio desde o início dos anos 2000, sugerindo que o desaparecimento ocorrera muito antes.
A reviravolta aconteceu quando o professor Cirillo foi procurado por Raphael. O laboratório vinculado ao Centro de Artes da UFES ,que desenvolve projetos de documentação, modelagem e impressão 3D voltados à preservação do patrimônio cultural, se colocou na frente para localizarem alguma vestígio do “busto”. A possibilidade de produzir uma réplica digital da obra, caso fosse encontrada alguma imagem antiga, reacendeu as buscas.
“Na conversa com a equipe do laboratório, percebi que uma fotografia poderia ser suficiente para reconstruir a peça em três dimensões”, relata Raphael. “Isso me animou a retomar as investigações.”
O esforço acabou levando à descoberta mais importante: o “busto” não era um busto, mas sim uma escultura; e mais, a escultura não havia sido destruída ou furtada. Estava apenas esquecida. Guardada durante décadas, a obra permaneceu afastada do espaço público até ser redescoberta por meio da rede de contatos acionada pelos pesquisadores Cirillo e Rafael.
A partir desse momento, começaram as articulações com a Secretaria de Cultura de Vitória para viabilizar o retorno da peça ao seu local de origem. A proposta inicial previa que a escultura fosse encaminhada ao LEENA para reconstrução das partes danificadas por meio de tecnologia 3D. Após reuniões com a administração municipal, contudo, definiu-se que a obra deverá ser reinstalada mantendo, por enquanto, as marcas do tempo.
Segundo Raphael Teixeira, a retirada da peça do local onde está guardada e seu encaminhamento para reinstalação devem ocorrer ainda neste mês de março, no contexto das obras de reestruturação da praça.
Para os pesquisadores envolvidos nessa descoberta, o reencontro do Hermes revela tanto as fragilidades quanto as possibilidades de preservação do patrimônio urbano. “Se um professor, sem grandes recursos, conseguiu identificar o paradeiro de um monumento desaparecido há tantos anos, imagino o que poderia ser feito com políticas públicas consistentes de preservação”, afirma.
Mais do que recuperar uma escultura, o retorno do Hermes representa a reintegração de um conjunto histórico que marcou a modernização de Vitória no início do século XX. A presença da peça na Praça Cecília Monteiro também dialoga com a história da Escola Maria Ortiz, inaugurada em 1912 para abrigar a antiga Escola Normal e formar professores.
Para pesquisadores e moradores do Centro, a volta da escultura simboliza uma reconexão com a memória da cidade. Após quase cinco décadas de ausência, o pedestal que permaneceu silencioso na praça poderá finalmente voltar a cumprir sua função original.
O episódio também evidencia o papel da pesquisa acadêmica e da mobilização cidadã na proteção do patrimônio cultural. A expectativa agora é que, uma vez reinstalado, o Hermes volte a integrar o conjunto de alegorias que ornamenta a escadaria Bárbara Lindenberg e o entorno do Palácio Anchieta, restituindo à paisagem histórica de Vitória uma parte esquecida de sua própria história.
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